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  • Bianca Guimarães Manuel

Clothing - uma contextualização / Roupas - a contextualization

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Durante o 2019 Discomfort Lab (produzido por Swallow-a-Bicycle Theatre) . Mark Hopkins and I (Bianca Guimarães de Manuel) decidimos revisitar um projeto que a companhia havia começado anos atrás.

Na outra versão desse projeto, xs membrxs estavam interessadxs no impacto que leis e legislações tinham em o que mulheres Muçulmanas poderiam ou não usar (a tentativa de alguns governos em banir o hijab e o niqab).

X time conheceu uma mulher niqabi chamada Shima. Durante o período que elxs conheceram ela, Shima estava tentando aprovar que as piscinas da cidade tivesse alguns períodos para que somente mulheres pudessem nadar. Desta maneira, mulheres Muçulmanas teriam mais liberdade (assim como mulheres não-Muçulmanas que preferissem um ambiente com apenas mulheres. Ela sofreu muito preconceito de outrxs cidadxxs, o que levou com que ela desistisse de continuar advogar para o que ela queria.

Na mesma época, um grupo Naturalista estava organizando um dia para nadarem pelados em uma das piscinas da cidade. Contudo, elxs cancelaram o evento pois pessoas na cidade ficaram furiosas pelo evento ser para todas as idades. Isso levou os artistas envolvidos na primeira fase desse projeto, perguntarem: Por quê estamos legislando o que as pessoas vestem e que roupa usam? Por quê estamos tão preocupadxs com isso?

Levando elxs a estarem interessadxs em engajar esses dois grupos (Naturalistas e mulheres Muçulmanas) em como a sociedade não consegue lidar com quem está muito vestidx e com que está pouco.

Quando nós revisitamos o projeto percebemos que esta premissa de comparar xs grupxs poderia funcionar em um perspectiva ‘antropológica’ ou ‘acadêmica’, não se sustenta na prática. Quando você entende a nuância de cada grupx, e considera a história da roupa e seu peso social e a subjetividade cultural que um item de roupa pode conter.

Eu gostaria de chamar a atenção dx leitxrx que sobre a roupa como símbolo social. Nós poderiamos voltar e olhar como a roupa ajudou seres humanxs a sobreviver em climas frios, mas talvez fazer isso seria uma perspectiva focada no norte global (afinal, muitxs grupxs indigenas no sul global sobreviveram com poucas roupas graças ao clima tropical, as pinturas e outras vestimentas tinham mais haver com tradições culturas e rituais espirituais do que da proteção do corpo físico).

Hoje em dia, nós usamos roupas para nós comunicar, e as vestimentas estão extremamente conectadas com ambientes sociais. Parte do motivo pelo qual nós vestimos pode ser para nós proteger/ou ajudar a navegar o clima que estamos inseridxs, outra pode ser para trazer o sentimento de pertencimento a certo grupx social, outra parte pode ser um senso individual de beleza que é construído a partir de memórias (meu pai usava esse tipo de camisa, etcetcetc). Mas gostaria de chamar atenção sobre como muito de roupa tem haver com visível e invisível. O que é visível do formato do seu corpo, ou não. O que é visível da sua identidade, ou não. O que é visível dx grupx que você se identifica, ou não. O que é visível da sua cultura, ou não. O que é visível da sua fé, ou não.

Em vista disso, eu alertei Mark que enquanto comparar xs dxxs grupxs hipoteticamente e tendo um frame teorico específico, não iria funcionar na prática. Tivemos uma reunião onde listamos as caraterísticas específicas de cada grupo, levando em consideração o que era visível e o que era invisível em relação à vestimenta em cada grupxs.

Mulheres Muçulmanas: a roupa, para elas, tem o significado e significante de conexão com Allah. Não é um item que poderia facilmente ser trocado, muito menos qualquer item. Hijab e niqab carregam anos e anos de de fé e história. Para algumas pessoas, isto pode ser visível ou invisível. No mundo ocidental, as vestimentas de mulheres Muçulmanas virou um símbolo medíatico de medo. Elas são marcadas e muitas vezes desrespeitadas por como elas se vestem. Uma mulher Muçulmana vivendo em um país ocidental, é um lindo gesto de fé e força, já que elas constantemente sofrem em serem aceitas. Elas são visíveis em espaços públicos, tão visíveis que várias pessoas se sentem no direito de abordá-las para questionar as suas crenças ou encará-las.

Sociedades Naturistas: se você faz parte de uma, com exceção dos momentos que você decide abrir sobre essa sua escolha… ninguém em um espaço público saberá da sua escolha. Ela é invisível para as pessoas ao seu redor. Além disso, ser naturista é um estilo de vida, e nada tem haver com fé. Qualquer pessoa, com qualquer expressão de gênero e idade pode escolher ser Naturista.

Mark e eu podemos ser muito conceituais, e focar demais em teorias sociológicas. Perdendo muito tempo em discussões políticas, pois essa é a nossa zona de conforto. Sabendo disso, nós concordamos a tentar não nos perder em nossas conversas e pesquisas. Desse modo, eu ofereci à ele misturarmos procedimentos dramaturgicos que aprendi no meu mestrado e metodologias dx Modo Operativo_AND (MO) que estudei nx Brasil.

Depois de reconhecermxs que de nenhuma forma, nós gostariamos de comparar esses grupxs e reproduzir perspectivas coloniais em nossa performance, nós tínhamos que definir qual era o novo centro do nosso trabalho. Ou o enunciado, como dizemos em MO. Depois de muitas conversas e pensar, chegamos em “a gente perde mais tempo preocupados com o que as pessoas vestem, do que como as nossas roupas são feitas”.

Naquele momento, nós mudamos nossa atenção para também os impactos ambientais da indústria da moda, além dos aspectos sociais, religiosos, e culturais. Ficamxs motivadxs a elaborar, provocar e pesquisar porquê a gente se preocupa com o que a pessoa x está vestindo (ou não), e não sobre o tanto de desperdício (e tanto de trabalho escravo) que uma camiseta nova de uma marca fast-fashion têm encravada e costurada nela.

ENGLISH BELLOW

During the Discomfort Lab 2019 (produced by Swallow-a-Bicycle Theatre), Mark Hopkins and I (Bianca Guimarães de Manuel) decided to redevelop and revisit a project that the company had started years ago.

In the previous iteration of this project, the members were interested in the impact of legislative laws on what Muslim women may or not wear in the western world (the attempt of some governments to ban the hijab and niqab).

The team then met Shima, a niqab women. During that time, she was trying get the city to have women-only time slots, in some of the swimming pools in the city. Thus, Muslim women would have a better time in them. She suffered a lot of prejudice from people, what led her to give up on trying to do so.

At the same time, a Naturalist group was organizing a naked swim at a public pool in Calgary. The cancellation of the swim got the artists attention in 2018. Why are we legislating how people dress and what people wear? Why are we so concern about this?

And in the time of the first development of the project, folks were interested in engaging these two groups (Naturalists and Muslim women) about how society cannot deal with the one that is too dressed and with the one that is too little.

When we revisited the project, we noticed that while this premise of comparing these two populations could work in an “anthropological” or “academic” perspective. It does not sustain itself more, when you understand the nuance of each group and history of clothing its social and cultural dwellings.

First thing I would like to draw the reader’s attention to is that clothing is a social symbol. We could look back to how clothing helped us to survive in colder weathers, but this would perhaps be an perspective focused on the global north (as many indigenous groups in the global south survived with fewer clothing due to tropical weather, paintings and other garments had more to do with a spiritual and cultural meaning).

Nowadays, we use clothing to communicate, and it is extremely connected with our social environment. Part of it might be to protect/or help us navigate the weather we are in, other is a sense of belonging to a social group, some other aspect might be an individual sense of beauty and memories (my father used this type of shirt, etcetcetc). But as I see, a lot about clothing is about visible and invisible. What is visible of your body shape, or not. What is visible from your identity, or not. What is visible from the group you identify with, or not. What is visible from your cultural, or not. What is visible from your faith, or not.

That being said, I flagged to Mark that while comparing this two groups could work in a hypothetical and specific theoretical frame, it would not work in practice. We have a meeting where we broke down and listed the specificities of each group using taking into consideration what was visible and what was invisible in each of these groups.

Muslim women: clothing, for them, has the meaning of connection to Allah. It’s not any item, or could be easily replaced. it carries years and years of history and faith. To some folks, this can be visible or invisible. In western world, they become the symbol to a mediatic war of fear. They are targeted because of how they dress and disrespected. Living in a Western Country as a Muslim women is a beautiful gesture of faith and strength, as they constantly struggle with being accepted. They are visible in a public space, so visible that people feel in the right to approach them and question their beliefs or stare.

Naturalist society: if you are part of it, except the moments where you are in a gathering, or decides to disclose your choice… no one, in a public sphere, would know about your choices. Your personal choice is invisible to others around you. Plus, being naturalist is a life-style, and has nothing to do with faith. Anyone, from any gender-expression and age could choose to be Naturalist.

Mark and I can be very conceptual, and focus on sociological theories. Spending a lot of times in political discussions. Knowing that, both of us agreed that we had to push ourselves not to get lost in our conversations and research. Thus, I offered him to work with a mixture dramaturgical procedures I learned in my MFA and Modo Operativo_AND (MO) methodologies that I studied in Brazil.

After acknowledging that in no way, shape, or form, we would like to compare these two groups and reproduce colonial perspectives in our art piece. We had to define what was the center from our work, or the enunciado how we would say in MO. After a lot of thinking and conversations we got to “we spend more time focusing on what other people are wearing, then how our clothes are made”.

At that moment, we shifted our attentions to also the environmental impact of clothing, besides than the social, cultural, and religious. And we become motivated to elaborate, provoke, and research why we worry about what x person is wearing (or not) and not about the huge about of waste (and slavery) the new fast fashion t-shirt had embedded in it.


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